Memórias de uma criança

Como podem as lembranças de infância impactar tanto nossa vida adulta positiva ou negativamente? Certamente Freud poderia falar sobre isto e incluir algo sobre experiências da nossa alimentação. Para mim uma criança como tantas outras fui impactado na infância e minhas lembranças sobre sabores doces e salgados, ausência ou excessos, coisas que gostávamos de comer ou não, hoje se tornaram memórias de alegria, cobiça ou tristeza e repúdio.

As lembranças que compartilho em rodas de conversas com outras pessoas e ao ouvir seus casos traz-me a ideia de que muitos temperos são tão específicos e inesquecíveis que hoje para serem reproduzidos precisaríamos quase que realizar um feito de alquimia e na maioria das vezes nem passaríamos perto para conseguir reproduzir uma experiência gastronômica que quando crianças tivemos acesso. Ahhh lembranças!!!

Estas são as receitas realizadas pelas nossas avós, mães, tias ou amigos de nossos parentes, muitas preparadas durantes as férias em fogões de lenha, panelas velhas de ferro, na casa do sítio ou da praia, algumas quem sabe até com ingredientes milagrosos ou fruto de “bruxaria”. Muitos destes ingredientes hoje dificilmente são encontrados como alguns fermentos (ou madres), carnes e verduras “orgânicas” de alta qualidade hoje em alta no mercado de orgânicos, mas antigamente a única e melhor opção.

No meu caso uma má lembrança vem da comida natural a base de soja, glúten e verduras e só Deus sabe o que mais havia naquelas refeições. Nada contra este tipo de comida, mas eu anseio encontrar um especialista da área para juntos cozinharmos e então desmistificar aquilo que para mim até hoje se parece com um laxante de veneno. Minha mãe por alguns anos, acredito eu, via este tipo de comida como algo muito bom para seus dois filhos e goela abaixo éramos obrigados (muitas vezes à força) a ingerir aquilo que para uma criança carnívora (eu) era o fim do mundo e o principio de uma disenteria com enjôos por toda tarde na escola.

Por outro lado minha mãe também contrabalanceava nossos passeios dentre os quais positivamente um deles nunca deixou o meus pensamentos e até hoje mora no meu coração, só de pensar minha boca saliva (efeito psicológico explicado por Ivan Pavlov – 1904). Esta história se passa em uma tradicional confeitaria de Brasília (405 sul). Desde que me lembro por volta de 1986, ela já existia a um bom tempo e eu a  considerava o portão de entrada para a cozinha de doces do céu.

Meu Deus como era gostoso ir naquela confeitaria e me deliciar com aqueles doces. Eram bombas de chocolate branca e também preta, sorvetes diferenciados e os meus prediletos e famosos torteletes de morango uma delicia difícil de ser reproduzida exatamente como a confeitaria a faz. O fato é que a situação financeira fazia com que o ambiente da confeitaria e os doces tornassem estes passeios únicos, aumentando ainda mais o meu desejo e apreciação pelo delicioso tortelete de morango.

Muitos anos se passaram e sempre que eu posso, visito a confeitaria. Claro também levo minhas filhas e esposa que sempre elogiam o local e se encantam com minhas histórias de infância que são contadas para que elas também revivam as histórias. Meu paladar cada dia mais apurado me tornou um verdadeiro expert no ato de provar e criticar estes tipos de doces. Por onde quer que eu vá sempre que posso provo um tortelete de uma confeitaria diferente. Porém hoje já muito mais experiente tenho me aventurado menos e me restrinjo a comer apenas nesta confeitaria o meu preferido e famoso tortelete de morango.

Eu particularmente nunca consegui reproduzir com exatidão esta sobremesa que não se tornou o meu forte. A massa, o creme, o tamanho, os morangos fora de estação e a gelatina do doce tornam a sobremesa ainda mais especial e para mim uma viagem à minha infância, segredos da culinária que um menino crescido ainda não desvendou.

Entretanto o desejo pela reprodução me fez desafiar a curiosidade que acabaram me rendendo bons torteletes, mas nunca igual. Vou publicar aqui uma receita que já fiz algumas vezes, muito boa, mas ainda não atingiu os portões da cozinha do céu que serve o tortelete de morango.

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