Moto vermelha, linda morena.

Meu pai foi um homem que morou em diferentes países do mundo. Homem simples e experiente, habilidoso em cativar amizades e um grande contador de histórias. Quem me dera ter tantas histórias e viagens como ele para contar, além é claro, da capacidade de prender a atenção do público e fazer todos rirem com cada uma das histórias. É dessas vivências em países pelo mundo que vem uma das histórias contadas pelo meu pai sobre a França e sua culinária.

Esta história começa em Viareggio, na Itália, onde meu pai morava com sua segunda esposa, uma linda morena, apelidada de Rôcha, mãe de dois dos meus irmãos. Era também em Viareggio que ele trabalhava na construção de um grande barco de luxo.

Um de seus melhores amigos tinha na cidade uma das 100 exclusivas motos italiana Ducati Paso 750, uma raridade na época e uma das primeiras motos totalmente carenada. Que linda moto italiana, de cor vermelha, histórica, feita para colecionadores, uma verdadeira obra de arte. Foi nesta época que conheci, por foto, a marca Ducati e pessoalmente, o capacete AGV que meu pai comprou e trouxe para o Brasil.

A moto Ducati era muito usada pelo meu pai e sua esposa, inclusive para passeios nos finais de semana. E aproveitando uma destas oportunidades eles foram de moto visitar a França e experimentar um restaurante muito recomendado por um de seus amigos.

Para um goiano experiente que pretendia aproveitar ao máximo a França, a moto vermelha e sua esposa morena, o pedido do jantar foi um prato simples de massa caseira, presunto parma, molho de tomate com parmesão e manjericão. Sua esposa, ao contrário, querendo tirar o maior proveito daquele romântico jantar, preferiu seguir o conselho de uma amiga francesa que morava na Itália. Tartere de Boeuf foi o seu prato escolhido. Elegante e nobre era uma novidade até então jamais vista por ela. Apesar de ser tradicional na França, na capital goiana pouco se ouvia falar sobre comer carne crua.

De fato, o prato feito à base de carne crua e mostarda dijon, acabou se mostrando uma péssima escolha para a morena que passou os demais dias e noites com um tremendo mal estar. Para meu pai que não pode aproveitar o resto do passeio, sobrou transformar a situação em mais uma de suas histórias para fazer todos morrerem de rir. Eu mesmo tinha uns 12 anos quando a ouvi pela primeira vez.

O tempo passou quando um dia lendo um livro de receitas francesas me deparo com o tartare de filé, o mesmo Tartare de Boeuf que eu tinha ouvido falar! Como pôde uma história me marcar pela lembrança da comida e moto. O que é uma lembrança pessoal de aromas, sabores e histórias sobre comida para alguém que gosta de cozinhar? Do livro à lembrança, da lembrança ao supermercado, deste para o açougue e depois para casa.

Meu primeiro tartare foi um sucesso no sabor, quem comeu não se arrependeu como a morena. Muito bem preparado escolhi cuidadosamente a carne fresca e demais ingredientes. Do tartare de filé veio a variação para o tartare de salmão igualmente saboroso. Ambos precisam ser repetidos. Só me falta fazer isto na França com uma Ducati, capacete AGV e minha esposa na garupa.

 

 

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